
Contribuições à Pratica Pedagógica
(Texto elaborado pela Equipe Letra e Vida-CENP)
Hipóteses de Leitura
Hoje
é possível saber que, assim como as hipóteses sobre como se escreve são
contribuições originais das crianças, a distinção entre o que está
escrito e o que se pode ler também resulta de uma elaboração do
aprendiz. Isso não significa que as informações recebidas tanto dentro
como fora da escola deixem de ter um papel nesta construção, e sim que a
compreensão de que se escreve cada seguimento do que se fala, por
exemplo, não é passível de transmissão direta nem é, como se pensava,
evidente por si mesma.
1-
As idéias dos alunos sobre o que está escrito e o que se pode ler
evoluem de acordo com as oportunidade de contato com a escrita;
portanto, promover variadas situações de leitura- em que os alunos
participem de forma ativa, ou testemunhem atos de leitura e escrita como
parte interessada- favorece a conquista da correspondência exaustiva
entre os seguimentos do enunciado oral e os seguimentos gráficos.
2-
Ler em voz alta uma oração ou um texto marcado oralmente de forma
artificial as fronteiras de cada um dos seguimentos escritos, ou
solicitar que os alunos pintem os espaços entre as palavras (como se
eles tivessem dificuldades para perceber o “vazio” que separa
graficamente as palavras) não garante sua compreensão de que tudo o que
foi dito deve estar escrito, e escrito na mesma ordem emitida. As
informações fornecidas pelo professor são processadas pelo aprendiz de
acordo com suas próprias concepções. Em outras palavras: os
alfabetizandos não possuem problemas de percepção quando não compreendem
esse fato tão óbvio ao olhar alfabetizado - o de que tudo o que se diz
deve estar escrito na mesma ordem da emissão. Mas a conceitualizaçã o
que possuem ainda não dá conta da questão, e avançarão na medida em que
tiverem oportunidade de participar em situações de aprendizagem que
demandem refletir sobre o que deve estar escrito em cada “ pedaço” dos
textos.
3-
Oferecer textos que os alunos conhecem de cor ( parlendas, poesias,
canções, quadrinhas etc) e solicitar que acompanhem a leitura indicando
com o dedo costuma ser uma boa situação para que possam reorganizar suas
idéias sobre o que está escrito e o que se pode ler. Solicitar que
localizem neses textos determinados substantivos, adjetivos, verbos e
até “partes pequenas” – artigos, preposições etc- pode ser uma boa
intervenção por parte do professor. Por exemplo, ao realizar uma
atividade de leitura de uma quadrinha ou canção que as crianças sabem de
cor, é interessante que, enquanto elas vão dando conta de localizar as
palavras que acreditam estarem escritas, o professor vá propondo a
localização de outras mais “difíceis”. Obseve a quadrinha abaixo:
PIRULITO QUE BATE BATE
PIRULITO QUE JÁ BATEU
QUEM GOSTA DE MIM É ELA
QUEM GOSTA DELA SOU EU
Além
de pedir para localizar “pirulito” e de perguntar com que letra começa
ou termina, é possível propor inúmeras questões para os alunos pensarem.
Pode-se notar que há inúmeras palavras repetidas. Para crianças que
ainda não avançaram muito em direção á idéia de que tudo o que se lê
precisa estar escrito, isso soa absurdo. Mas, como as dificuldades são
de ordem conceitual, e não perceptual, salta-lhes aos olhos que existem
vários “pedaços” idênticos. Mais precisamente cinco pares. Quatro se
repetem na mesma posição, no verso seguinte e um (Bate) no mesmo verso.
Apoiar o esforço dos alunos para descobrir o que está escrito em cada
par e em cada um dos outros pedaços é a tarefa do professor. Lançando
uma questão de cada vez, analisando as respostas para formular a
seguinte e, dialogando, ir avançando com eles.
4-
O trabalho com listas ( de animais, brincadeiras preferidas, ajudantes
da semana etc) também é adequado na fase inicial da alfabetização, pois
além de ser um tipo de texto que vê de encontro à idéia das crianças de
que só os nomes estão escritos, permite que elas, diante de uma situação
de leitura de lista, antecipem o significado de cada item, guiadas pelo
contexto((animais, brincadeiras etc) e, na situação de escrita de
lista, concentrem na palavra e reflexão sobre quais letras usar, quantas
usar, em que ordem usar.
5-
Iniciar a alfabetização pelas vogais e palavras como “ ovo, uva, pé, em
lugar de facilitar, pode acabar dificultando a aprendizagem dos alunos.
Essa escolha didática desconsidera que, no início de seu processo, os
alfabetizandos acreditam que palavras com poucas letras não podem ser
lidas. Portanto, centrar a fase inicial da alfabetização em atividades
com esse tipo de palavras- tidas como fáceis- significa caminhar na
contramão das idéias dos aprendizes.
6-
O conhecimento das “hipóteses de leitura” n ao deve se transformar em
um recurso para categorizar os alunos, mas sim estar a serviço de um
planejamento de atividade que considere as representações dos alunos e
atenda suas necessidades de aprendizagem.
7-
É preciso cuidado para não confundir hipóteses de leitura com
estratégias de leitura: são coisas diferentes. As idéias que as crianças
têm a respeito do que está escrito e do que se pode ler, isto é, as
hipóteses de leitura, são de natureza conceitual. Já as estratégias de
leitura- antecipação, inferência, decodificação e verificação- são
recursos que os leitores- todos, tanto os iniciantes como os
competentes- usam para produzir sentido enquanto lêem um texto. São
estratégias de natureza procedimental, o que significa que são
constituídas e desenvolvidas em situações de uso.
8-
É fundamental desfazer um equívoco generalizado. Muitos professores
pensam que as conhecidas hipóteses de escrita- pré-silábica, silábica,
alfabética- são também hipóteses de leitura. Não há fundamento para
dizer que um aluno é, por exemplo, sil´bico na leitura. É importante que
os professores compreendam que, quando um aluno escreve IOA e,
solicitado a ler, aponta I ( para PI), O ( para PO), A ( para CA), ele
está explicando o que pensou enquanto escrevia. Está explicando sua
hipótese de escrita. Está justificando sua escrita. O que poderíamos
chamar de hipóteses de leitura são as soluções que o aluno produz quando
solicitado a interpretar um texto escrito por outra pessoa, como é
possível observar no programa O que está escrito e o que se pode ler.
FONTE: BLOG DA TATIANA